Análise crítica: O Cinema de Hitchcock

Análise crítica: O Cinema de Hitchcock

 1 INTRODUÇÃO

 

De todas as histórias, frequentemente tortuosas ou mesmo trágicas, sobre o estabelecimento das carreiras dos grandes autores cinematográficos, a trajetória de Alfred Hitchcock é sem dúvida a mais invejada. Hitchcock teve uma carreira prolífera, sem grandes hiatos ou períodos de seca criativa; sempre gozou de uma popularidade que lhe concedia um excelente poder de barganha para negociar com produtores e levar à frente seus projetos de predileção; […] (GARDNIER, 2014, Introdução)

 

Hitchcock nasceu no dia 13 de agosto 1899 em Londres na Inglaterra e recebeu o nome de batismo de Alfred Joseph Hitchcock, filho de um comerciante, teve uma rígida educação católica, que influenciou toda a sua obra cinematográfica.

Faleceu no dia 29 de abril de 1980 com 80 anos em Los Angeles na Califórnia. Foi diretor, produtor e roteirista. Foi casado com Alma Reville que nasceu em 1926 e faleceu em 1980.

Prêmios: ganhou o Globo de Ouro como Melhor Série de Televisão (1958), o Oscar da Academia como Prêmio Memorial Irving G. Thalberg (1968), outro Globo de Ouro como Prêmio Cecil B. DeMille (1972). Entrou para história do cinema mundial como o “mestre dos filmes de suspense”.

 

2 O CINEMA DE HITCHCOCK

 

O cinema de Hitchcock tem sido paulatinamente estudado e pesquisado sempre à luz das técnicas cinematográficas, estilos narrativos, olhar da psicanálise, referências metafísicas, obras de arte e um profundo estudo da alma humana. Existe uma camada além do visível, o plano de Hitchcock precisa ser investigado. Sempre existe uma camada de conhecimento e existe uma segunda camada que é a que realmente importa. Só se percebe lendo as metáforas ou o teatro de olhares, expressão facial, diálogo mudo, sutilezas de expressão facial, relação entre os planos. Tem uma segunda cena com implicação metafísica, uma composição em profundidade. O cinema de Hitchcock sempre é a iminência do que vai acontecer. A eminência estética do perigo do risco é a estética do suspense.

Hitchcock esteve nos anos 20 nos estúdios alemães, foi assistente de F.W. Mornau, adquirindo assim o aprendizado in loco de luz e sombra e o uso da câmera solta. Com movimentos extravagantes de câmera, constrói o seu ponto de vista, assim dilui o que aprendeu com o expressionismo.

 

3 ANÁLISES DOS FILMES JANELA INDISCRETA E UM CORPO QUE CAI[1]

 

3.1 Janela Indiscreta (Rear Window – 1954).

 

Em Nova Iorque, no bairro de Greenwich Village, Jeff (James Stewart) que é um fotógrafo está preso a uma cadeira por ter quebrado uma perna enquanto trabalhava. Ele passa horas olhando as janelas dos seus vizinhos quando pensa ter visto um deles matar a esposa. Para desvendar este mistério ele envolve a sua noiva Lisa (Grace Kelly).

As cortinas se abrem lentamente, o ritual inicial da sala de cinema, o filme é referência ao próprio cinema. Abre-se ao campo do visível que a princípio estava velado. Este olhar de câmera vai mudar de característica, vai se tornar um olhar obsessivo. Este olhar vai desconfiar de um crime.

O próprio apartamento de Jeff é uma metáfora da câmera escura – base da invenção da fotografia no início do século XIX, tudo que acontece no apartamento dele é invertido do que está lá fora. Existe uma relação entre a câmera escura, a visão subjetiva (expressionismo) e a sensibilidade romântica. Lisa aparece aqui, com o papel da mulher diferenciada, é ela que se predispõe a ir ao apartamento do assassino. Ela é que sempre toma a frente nas decisões. A perna engessada de Jeff é o complexo de castração. Ela é mais viril do que ele. No final do filme isto é confirmado, porque ele está com as duas pernas engessadas.

O apartamento é a caverna de Platão – homens atormentados com sombras projetadas nas paredes. O desejo do conhecimento externo. O conhecimento verdadeiro exige esforço. O apartamento de Jeff é cheio de fotos que são sombras e ele esta na cadeira, na caverna de Platão. Esta teoria é fortalecida com o final, Jeff com as duas pernas quebradas é obrigado a continuar no apartamento porque ele gosta de viver com estas sombras.

A energia do Hitchcock é no olhar. Ação se troca por visão. Jeff paga pelo preço do voyeurismo. Jeff é o duplo do próprio expectador.

Efeito Kuleshov foi muito usado por Hitchcock principalmente na abertura, na sequência em que mostram várias imagens que contam muito sobre o lugar que Jeff (James Stewart) mora, a sua profissão e até a causa da perna engessada.

Hitchcock usa a aproximação da câmera, quando a atenção se fixa a um Griffith é objetivo com o suspense, já Hitchcock vai investir em um lado da história, fazendo o espectador acompanhar a cena do ponto de visto dele, do diretor.

Trabalha o cinema com a intensificação do nosso afetivo.

 

3.2 Um corpo que cai (Vertigo, 1958)

Scottie (James Stewart) é contratado para investigar Madeleine (Kim Novak) pelo seu marido Elster. Scottie havia sofrido um trauma com a morte de um policial, por isto estava aposentado. Elster desconfia que a esposa esteja enlouquecida, por se achar envolvida pelo espírito de Carlotta Valdes e teme que a esposa tente suicídio. Assim começa esta trama.

O motivo espiral é a mãe do filme. O cabelo de Carlotta Valdes no quadro do Museu de São Francisco é um coque espiralado, assim como o cabelo que Madeleine. O espiral causa a sensação de queda, de vertigem.

O tema da câmera escura e o voyeurismo, já bastante discutido em Janela Indiscreta, retornam em Um corpo que cai, na cena em que o Scottie seguindo Madeleine/Judy, ela entra na loja de arranjos florais, ele olha para ela de dentro de um ambiente escuro (os fundos da loja) e a imagem dela é refletida no espelho, ao lado do rosto dele. A imagem que ele vê. Aliás, o espelho tem um papel muito importante neste filme, quase um outro personagem, ele é o reflexo do nosso olhar. Hitchcock busca em Lacan um jogo complexo de relação de personalidade com o espelho e mostra isto em vários momentos do filme. O espelho está presente no restaurante, local que Scottie vê Madeleine/Judy pela primeira vez, e também presente na cena final da revelação de Judy na sala de seu apartamento. Segundo Musso Greco:

O espelho é, portanto, o ponto de partida da subjetividade humana, já que a imagem do corpo próprio é uma espécie de “matriz simbólica” do sujeito, proto-símbolo de sua presença no mundo. Nesse instante de ver, a presença do Outro vem marcar indelevelmente o sujeito pelo significante, descorporificando o eu − ou eu (moi) −, que entra no discurso como forma de dar substância ao sujeito − ou Eu (je). (GRECO, 2011. p.6).

Com este jogo de olhares e espelhos, Hitchcock introduz uma reflexão sobre os paradigmas de como se constrói olhar na concepção da imagem. O espelho cria uma segunda linguagem ilusória. Passa de um regime de transparência para um regime de olhar. Divisão, superfície que reflete falsa idolatria, não reconhecer os verdadeiros ídolos, está realizado o engano. Hitchcock era erudito e usa o espelho em várias cenas para se remeter à mentira. Judy: realidade mundana, corpo matéria bruta. Madeleine: ideia, junção dos dois. Carlotta Valdes: conceito, tríade de Hegel onde o absoluto aparece primeiro como ser e depois como essência (ser/essência/conceito). Quando Scottie remodela Judy, buscando refazer a imagem de Madeleine, é o Efeito Pigmaleão da Psicologia, é como construímos a realidade de acordo com as nossas expectativas em relação a ela. No mito de Pigmaleão ele aproxima a chama para dar calor à estátua e Scottie traz a Judy para próximo à lareira.

Schneider (2010, p.348) classifica Um corpo que cai como: “um filme maravilhoso, perturbador, friamente romântico, com imagens cinza-chumbo em Technicolor, momentos evocativos de surrealismo em close e uma trilha sonora insistente e experimental de Bernard Herrmann”.

 

4 CONCLUSÃO

 

Hitchcock vai além do seu tempo, com a sua genialidade, era um ícone, era um modernista. Difícil classificar esse diretor, tendo uma extensa e rica filmografia que vai de 1922/1925 (Number 13/ Pleasure Graden) a 1976 (Family Plot). Quanto mais se assiste aos seus filmes e se pesquisa as suas referências, mais se descobre sobre a profundidade das suas obras. Sempre haverá compensação em revisitá-lo, não tem como estudar cinema e não fazer referências a este grande mestre do suspense. E com certeza, nunca haverá uma última palavra a respeito do mestre e sua obra.

REFERÊNCIAS

 

HITCHCOCK. Centro Cultural Banco do Brasil. 2014. Disponível em: <http://www.bb.com.br/docs/pub/inst/dwn/Hitchcock.pdf>. Acesso em: 17 maio 2014.

 

GRECO, Musso. Os espelhos de Lacan. Opção Lacaniana online: nova série, v 2, n. 6, nov. 2011. Disponível em: <http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_6/Os_espelhos_de_Lacan.pdf>. Acesso em: 03 maio 2014.

 

SCHNEIDER, Steven Jay (Ed.). 1001 Filmes para ver antes de morrer. Rio de Janeiro: Sextante, 2010.

 

Maio / 2014

[1] Caderno de anotações do autor, resultante do curso O Suspense Subjetivo de Alfred Hitchcock ministrado pelo crítico e pesquisador da USP Luiz Carlos Oliveira Jr no período de 03/09/2013 a 05/09/2013 na Sala Humberto Mauro em Belo Horizonte.

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