Análise Crítica A Vizinhança do Tigre

Análise Crítica A Vizinhança do Tigre

Autores: Jéssica Valéria, Liz Belle, Marcelo Cesar, Ramon Xavier, Reinaldo Paiva

Grande vencedor da mostra de Tiradentes de 2014, na categoria de melhor filme do júri critica e júri jovem, o filme “A Vizinhança do Tigre”, é um documentário também apresentado na 9° mostra de cinema e direitos humanos do hemisfério sul, roteirizado e dirigido por Affonso Uchoa, mineiro e morador do bairro Nacional em Contagem – Minas Gerais. Este documentário tem levantado vários debates por onde passa devido a sua singularidade em mostrar a vida, os sonhos e a rotina de jovens moradores da região periférica de Contagem.

O filme tem encontrado espaço em mostras de cinema e direitos humanos por apresentar a vida das pessoas que moram naquele bairro de forma diferenciada do senso comum. Ao contrário dos filmes de estética violenta, como “Cidade de Deus”, ele foca com uma câmera bem próxima dos personagens, o dia a dia de cada um. Trabalho e diversão, crime e esperança são temas abordados tendo como palco de fundo, recortes do bairro Nacional, sem mostrá-lo por completo, apenas num plano aberto e escuro. Algumas cenas são apenas iluminadas pelas luzes alaranjadas dos postes. Affonso Uchoa mostra a cultura, a linguagem e a dinâmica vital da periferia. É a oportunidade de se discutir os direitos humanos através do cinema – veículo de ótima aceitação popular.

A estética usada por Uchoa, para a realização do filme, foi construída de forma documental e ficcional, mas nas palavras do diretor, começou a gravá-lo sem roteiro. Ele começa com visitas frequentes aos moradores e a partir deste envolvimento, a câmera entra sem compromisso com tempo, gravando diálogos que foram construídos nas relações do momento. Estes takes são registrados até o final do dia, quando a luz natural se vai. No filme, estes personagens são apresentados aos poucos. Sendo eles: Juninho (Aristides de Souza), Menor (Maurício Chagas), Neguinho (Wederson Patrício), Adilson (Adilson Cordeiro) e Eldo (Eldo Rodrigues) que vem a óbito, após as filmagens.

Como princípio político, o diretor filma os pobres, os derrotados da vida, a escória da sociedade contemporânea de forma natural e simples. O recorte sobre a vida deles é feito, porém, sem marginalizá-los. É preciso que eles sejam filmados para lhes dar voz, não devem ser silenciados pelo preconceito ou até mesmo pelo paternalismo, como ideal ético. É preciso que todos saibam que a periferia também é feita de sonhos e lutas, lá tem drogas, armas, violência, mas também tem casamento, trabalho, diversão e companheirismo. Também tem fé e esperança em dias melhores.

O Tigre, do título, está dentro de cada um dos personagens. Este animal poderoso é caçador por excelência, mas também ele é caçado. Os personagens mostram o local das balas com orgulho. São marcas da violência que tatuam os jovens e isto é moeda de força entre eles. Tem uma cena, na qual um personagem Menor (Maurício Chagas) está dentro da sala de sua casa e ele olha pelas grades da janela, como um animal enjaulado, apenas um tigre preso. Neguinho (Wederson Patrício) aparece em uma sequência brincando com um cabide como se fosse uma arma, da mesma forma, Menor e Neguinho aparecem em outra sequência fazendo uma espécie de treinamento com uma arma verdadeira e uma faca. No título também encontramos os personagens se relacionando com os espaços. O filme não tem um espaço definido, mesmo sendo localizado no bairro Nacional, poderia ser em qualquer periferia. O palco deste tigre é a vizinhança. Ele transita por todos eles, para andar de skate, para roubar mexerica no quintal alheio ou para o uso de um baseado. O filme dá visibilidade a este animal/gente em extinção, o jovem da periferia está sendo morto.

O filme “A Vizinhança do Tigre” vai além de gostar ou não gostar da situação abordada. Trata-se de questões delicadas, discutíveis. A realidade ficcionada pelo diretor é distante? Não. Não é. Ela se avizinha da nossa casa.

O filme propõe uma dura experiência social e visual, as vidas daqueles jovens existem, e tomam um plano maior quando o espectador está ciente da realidade do lugar. O bairro Nacional, não é assistido de maneira satisfatória nem pela prefeitura de Contagem, muito menos pela de Belo Horizonte. É obviamente uma região em franco desenvolvimento. O crescimento local pode-se notar pela chegada de grandes redes de supermercados e comércios em geral, além de uma agência dos correios. Os habitantes da região do bairro Nacional têm sido duramente penalizados pela precariedade do transporte coletivo. Não há metrô e o serviço de ônibus é prestado por uma única empresa, cujas linhas possuem itinerários demasiadamente longos e desnecessários, que fazem com que o acesso a regiões próximas, como Pampulha, Venda Nova e Justinópolis, seja extremamente difícil. Seus habitantes são fadados com a falta de oportunidade. Estas existem, mas são obstruídas com a falta de acesso. Então como culpar ou condenar os jovens?

Jovens envolvidos com drogas alucinógenas, cigarros e roubos. Jovens alienados pelo sistema, contagiados pelas músicas que cantam tão alegremente. Jovens engolidos pelas rotinas e desejo de mudança. Reconhecem à sua maneira, o meio e suas ações. O filme não tem em si um fim satisfatório, mas, é um retrato de identificação do jovem com sua realidade, consumidos pela sua sede de viver e experimentar.

A obra trabalha o caráter de provocar identificação e desconforto, a quem assiste. É um misto de identificação pelas gírias, expressões e os espectadores se vêem projetados na tela ao pensar que aquela realidade pode não estar tão distante, o que gera desconforto, poderia ser nossos familiares ou amigos. Em uma questão técnica, o filme é um excelente exemplo de como abordar seus atores sociais, Uchoa o faz, como já dito, de maneira singular, sem definir o que é certo ou errado, ele não julga, expõe de maneira crua a realidade sem marginalizar os seus atores sociais. O filme é um exemplo de problemas que assolam muitos lugares, ou seja, problemas que apenas mudam de endereço.

Analisando pelo aspecto social da obra percebemos que apesar da realidade destes jovens serrem diferentes, eles ainda são atingidos por algumas das normas sociais as quais as pessoas que não são da região de periferia possuem. Os dois rapazes em um momento começam a disputar quem tinha mais machucados, melhores roupas e aparelhos de celular. Quando nos deparamos com esta situação ela causa um estranhamento, mas ela não é muito diferente do comportamento da classe média e alta, o que diferencia é o contexto. Por exemplo: em vez de cicatrizes muitas pessoas disputam posições sociais e salários dos seus empregos, porque elas possuem essas oportunidades. As tendências dos comportamentos da nossa sociedade estão presentes nesses jovens só que são restringidas ao que é acessível para eles, logo não podemos esquecer que apesar dos contextos sociais serem diferentes, a essência do comportamento é a mesma.

Concluindo, o filme como uma obra documental, é mais um que traça a linha tênue do Cinema Verdade, pois, ao mesmo tempo em que o filme retrata uma realidade, o documentarista chega ao bairro Nacional sem nenhum roteiro pronto, acaba por construí-lo, de uma forma conjunta, com os atores do filme. Os personagens/atores interpretam a si mesmos e criam suas próprias situações que, ao mesmo tempo, são ficcionais, retratam de forma singular o olhar para si. Porém, tal abertura cria também possibilidades de representação que se aproximam da forma teatral, quando Menor e Neguinho brincam primeiramente espremendo laranja em um e posteriormente jogando pipoca no outro. Algumas cenas como esta, avançam no filme evidenciando certa “atuação” que normalmente passaria oculta no gênero documentário. Por tais características muito peculiares, o filme “A Vizinhança do Tigre” foi ganhador de vários prêmios importantes do gênero documentário no cenário nacional. Este documentário marca presença em um momento muito especial neste contexto: a luta pelos direitos dos excluídos.

 

Ficha Técnica

Roteiro: Affonso Uchoa, João Dumans, Aristides de Sousa, Maurício Chagas, Wederson Patrício, Eldo Rodrigues, Adílson Cordeiro.

Fotografia: Affonso Uchoa

Edição: Luiz Pretti, Affonso Uchoa, João Dumans.

Empresa produtora: Katásia Filmes

Elenco: Aristides de Sousa, Maurício Chagas, Wederson Patrício, Eldo Rodrigues, Adílson Cordeiro.

 

REFERÊNCIAS

CONTAGEM, Prefeitura Municipal de. Administração Regional Nacional. Apresentação. Disponível em:

<http://www.contagem.mg.gov.br/?og=007133&op=apresentacao>. Acesso em: 09 maio 2015.

 

FERNANDES, Felipe. A vizinhança do Tigre. 2014. Disponível em:

<http://www.mostracinemaedireitoshumanos.sdh.gov.br/2014/?q=mostra-competitiva/filme/vizinhan%C3%A7-do-tigre>. Acesso em: 09 maio 2015.

 

NACIONAL Contagem. Wikipédia. Disponível em:

<http://pt.wikipedia.org/wiki/Nacional_%28Contagem%29>.  Acesso em: 09 maio 2015.

 

SALGADO, Lucas. Crítica AdoroCinema:  a vizinhança do Tigre. Viagem Antropológica. Disponível em:

<http://www.adorocinema.com/filmes/filme-228902/criticas-adorocinema>. Acesso em: 09 maio 2015.

 

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