Análise do filme Branco Sai, Preto Fica (2014)

Análise do filme Branco Sai, Preto Fica (2014)

Branco Sai, Preto Fica (2014) causou alvoroço quando recebeu o prêmio de melhor filme no 47º Festival de Brasília. O título do filme se refere a uma frase dita pelos policiais quando entraram em um baile black dos anos 80 em Ceilândia, cidade satélite de Brasília, antes de começar o espancamento e o tiroteio. Neste linchamento várias pessoas são feridas e o diretor Adirley Queiros conta a história de dois deles. Misturando documentário e ficção, um terceiro personagem na história, um homem vem do futuro investigar o acontecido e culpar a sociedade repressiva, classicista e preconceituosa pelo ocorrido.

O filme narra a história destes três homens negros solitários e errantes. Sartana tem uma perna mecânica devido o pisoteamento dos cavalos usados pelos policiais na noite do baile, trabalha na laje, sempre acima dos moradores daquela cidade, observa, desenha e fotografa (registro de memória) a cidade. Os desenhos feitos por ele, montados, narram o ataque simbólico e poético à Capital. Sartana nos trás à memória os replicantes de Blade Runner (1982), filme cult da década de 1980 do diretor Ridley Scott. Estes androides eram utilizados como escravos ( … preto fica?) na colonização de novos planetas. Um grupo de robôs provoca um motim e isto faz os replicantes serem caçados por um esquadrão de elite, os Blades Runners ( … policiais?), com a ordem de atirar para matar, o que não é chamado de execução e sim de remoção. Teria Adirley crescido assistindo “as remoções” destas cidades periféricas de Brasília?

A outra personagem é Marquim que se locomove com a ajuda de uma cadeira mecânica, devido os tiros recebidos na noite do baile. Passa boa parte do tempo no trabalho subterrâneo, um bunker de extrema importância para o desenrolar da história. Vive nas lembranças daquele tempo com uma rádio independente. A narração em ritmo de rap nos traz da memória, as lembranças daquele dia fatídico. Fotos são usadas, junto à narração de Marquim para criar o cenário do baile. São moradores de Ceilândia, que para transitarem para fora dela precisam de passaporte, cidade maldita, país exterior como na cidade de Alphaville (1965) de Godard.

O nome do espaço dançante do baile black é Quarentão e no dia 05 de março de 1986, a polícia ataca o local com helicópteros, cães e cavalaria, causando graves marcas físicas e emocionais a estas duas personagens. Estes dois homens planejam uma vingança à capital do país.

Como já citado, a parte ficcional é incrementada pela chegada de um terceiro homem que vem do futuro – Dimas Cravalanças, agente terceirizado do Estado brasileiro, isolado pelo tempo no espaço, anda por espaços vazios. Está preso no presente e veio com a missão de reparar os crimes do passado – lembranças que serão resgatadas, crimes que foram cometidos pelo Estado contra a população de Ceilândia (a periferia). Estas narrações vêm não só trazendo o passado, mas também ressignificando e abrindo espaço para o futuro. Como que estes acontecimentos ligados à memória destes personagens estão vinculados a estes espaços específicos? Sons que serão recolhidos no cotidiano de Ceilândia serão usados como uma bomba para destruir os espaços que haviam sido tomados deste povo. Atacar o centro do poder com aquilo que é a marca cultural da existência deste povo afastado: sons da Ceilândia – melhor arma não há.

O trabalho de Adirley é buscar na memória destes três personagens o que foi tomado em tempo do passado. São personagens isolados nas memórias em imagens de álbum de casamento, folheado por Sartana. Os espaços filmados são vazios, distantes como convite a preencher o sentimento de perda que vai na alma destes personagens. Os recursos usados para trazer o presente são fotos do baile e a narração tenta montar ou tenta compreender o que aconteceu no baile que causou o trauma, a operação de guerra do dia 5 de março de 1986. Só uma bomba sendo construída com sons pode aliviar esta dor e a sensação de vazio.

Segundo Guimarães (2014) “[…] o acontecimento traumático não concerne mais à primeira geração que habitou Ceilândia, e sim aos rapazes que curtiam o baile Black do Quarentão.” Não é mais a geração que foi expulsa das imediações do plano piloto, trazidas pelo diretor em A Cidade é uma só? (2011) é uma segunda geração. A catarse do diretor é fazer tábua rasa de toda memória vivenciada por ele em toda sua vida de Ceilândia.

É nesta questão de resgate de lembranças, marcas de territórios e manifesto de revolta que o Adirley se insere em um cinema inventivo, novo, poético e que vem para incomodar, como toda uma geração de cineastas como Affonso Uchoa com o seu nada fácil: A Vizinhança do Tigre (2014) e não tem como não citar o diretor português Pedro Costa, em especial com seu filme Juventude em Marcha (2006).

O geógrafo David Harvey (2006) nos coloca o seguinte questionamento: “Como, então, podemos decifrar o espectro de significações dadas à palavra “espaço” sem nos perdermos em um labirinto (metáfora espacial interessante) de complicações?” (Harvey, 2006, p.8), este questionamento de Harvey nos faz pensar no posicionamento espacial dos personagens de Queirós. A apresentação e o desenvolvimento de cada um deles se encontram em um espaço metafórico.

Como análise seguinte:

                              F1: Sartana na laje

                                        Fonte: YouTube

Sartana, aquele que olha por cima, observa, registra e fotografa a cidade que ao longe parece ser Brasília. Como portador de uma perna mecânica é o “engenheiro” que desenha, arquiteta o ataque à cidade que observa. Nele concentra toda a arte desenhada da história que começa com os planos sendo arquitetados e termina com o ataque. Os desenhos de Sartana poderiam ser o protótipo de um story board do filme. Na sua caneta está todo o filme de Adirley. Sartana: – A cidade toda era uma parte de minha vida, parece que cortou aquilo ali tudo . . . Nesta fala de Sartana existe uma assimilação da perda da sua perna com a não adequação ao espaço, no qual ele vivia. Não é mais possível para ele estar nos lugares os quais vivia o seu presente e planejava o seu futuro. E continua. Sartana: – era uma parte que eu estava perdendo. Eu não tinha mais direito de estar naquela esquina.  Adirley após estas falas deixa em cena os seus personagens reflexivos olhando para os espaços dando tempo para o espectador digerir o que foi falado. Tem muita relação do espaço vivido e os traumas dos personagens.

 

F2: Dimas Cravalanças saindo da “nave”

                                       Fonte: YouTube

Dimas Cravalanças, aquele que veio do espaço e se encontra no nível da superfície, na horizontalidade, a justiça que busca o equilíbrio desfeito, a desestrutura de vidas pelo ataque ao baile dos anos 80. Vem do alto, do espaço como um messias divino, ele é a personagem que vem incriminar o Estado brasileiro contra população periférica – ironia que nos remete à exclusão do povo do em torno de Brasília, quando da sua fundação, história que o diretor nos conta no A Cidade é uma só?. Dimas é protagonista das duas cenas mais impactantes do final do filme, quando faz um desabafo, apontando uma arma imaginária no meio de um ferro velho, cenário de ferros torcidos, como se aquilo representasse toda a malha política na qual o nosso país está inserido. Ele termina a fala apontando a arma para a câmera, todos nós somos responsáveis pela sociedade democrática que vivemos e e pelo governo que elegemos. Após o bombardeiro à Brasília, Adirley coloca Dimas novamente no meio dos ferros. O nosso futuro em uma malha de ferros retorcidos, nada mais significativo. Adirley como um adivinho não poderia imaginar o momento pelo qual o nosso país enfrenta. Cena final muito significativa e representativa do Brasil nos anos 2017.

 

F3: Marquim da Tropa descendo para o bunker

                            Fonte: YouTube

 Marquim da Tropa, o homem do subsolo, já não basta estar preso à cadeira, é  necessário descer todo dia, dentro de uma edificação rodeada por grades, preso à cadeira e ao espaço físico onde vive. Espaço do subsolo, narrador do porão das memórias, ali ele vive e revive os momentos do trauma. São detalhes da história acontecida narrada em forma de rap na rádio da madrugada. Toda sua emoção é construída nas músicas e a sua cena de redenção e de acerto com o passado é o fogo que coloca no sofá com todos os LP´s dentro. O fogo da purificação e as cinzas daquela cena poderão ser a passagem para um futuro menos traumático. É das entranhas da terra, no subsolo que surgirá a bomba, responsável pelo resgate do trauma ocorrido.

É muito difícil fazer uma análise completa do pensamento do diretor no momento da escrita do roteiro e da decupagem. O que foi colocado acima são só flashes de ideias que passam por nossas cabeças quando nos deparamos de forma mais analítica sobre as personagens e as cenas usadas na análise. Cabe um estudo mais aprofundado para se ter mais assertividade nos tópicos aqui levantados.

Finalizando, vale a pena reafirmar a perspicaz e a inteligência do Adirley em construir esta narrativa com elementos de ficção e de forma sutil e poética tratar de um assunto tão polêmico e delicado como a discriminação racial e social do Estado. Assunto presente em todo o mundo e muito discutido nos dias de hoje, onde as minorias com direito a voz, como as mulheres, índios, negros, homossexuais e pobres buscam representatividade em uma sociedade ainda muito marcada por todos os tipos de preconceitos.

Um manifesto que tem o seu caráter atemporal e tem o nosso maior respeito. Branco Sai, Preto Fica, mais um ponto na curva ascendente deste diretor que muito admiramos.

 

Referência Bibliográfica

 GUIMARÃES, César. Noite na Ceilândia. Publicado originalmente no catálogo do 18° Forumdoc – Festival do Filme Documentário e Etnográfico | Fórum de Antropologia e Cinema, Belo Horizonte, novembro de 2014.(Disponível para download em http://www.forumdoc.org.br/catalogo-forumdoc-bh-2014/).

HARVEY, David. O espaço como palavra-chave. Universidade de Nova York.  Original: Harvey, D. 2006. Space as a keyword. In: Castree, N. e Gregory, D. (org.)David Harvey: a critical reader. Malden e Oxford: Blackwell. Tradução livre: Letícias Gianella. Revisão técnica: Rogério Haesbaert e Juliana Nunes. 2006. 39 p.

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