A cor e a poesia no Abril Despedaçado de Walter Salles

A cor e a poesia no Abril Despedaçado de Walter Salles

Autores: Marcelo Cesar | Izabela Silva  | Reinaldo Paiva

Baseado no romance de Ismail Kadare, Abril Despedaçado (2001), décimo filme do renomado diretor brasileiro Walter Salles, é uma co-produção suíço-franco-brasileira. O filme é citado por Ballerini (2012) como um grande filme do período considerado por alguns autores como Retomada do cinema brasileiro, que vai do período de 1995 a 2002. Abril Despedaçado chegou a ser indicado ao prêmio de melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro e no BAFTA e levou  o prêmio de melhor direção no festival de Havana em 2001.

O enredo se passa no sertão nordestino de 1910, onde duas famílias perpetuam uma guerra ancestral pela posse de terras.  Tonho (Rodrigo Santoro), um jovem de 20 anos – filho do meio da família Breves – vive um conflito existencial, pois é obrigado pelo pai a matar o filho da família inimiga, para cumprir a tradição macabra de vingança entre as duas famílias. A história original do livro se passa na Albânia, mas a ideia de lutas entre vizinhos de terra é universal e transpô-la para o sol escaldante do sertão brasileiro foi um trabalho primoroso de toda a equipe do filme.

Salles trás uma estética contemporânea para a representação do sertão. Com uso de cores bem saturadas e contrastadas, o diretor difere da Estética da Fome proposta pelo movimento do Cinema Novo e se aproxima do que a pesquisadora Ivana Bentes chegou a propor como Cosmética da Fome. Esta expressão é utilizada para filmes “ambientados em cenários de carências, (que) visam ao espetáculo bom de ver, (e) não a uma reflexão contundente” (ÉPOCA). Assim é o caso do filme de Salles, que embora apresente muitos elementos poéticos, a sua proposta estética não surge como um ato de denúncia daquela vida miserável do sertão, mas apenas flerta e romantiza com aquela situação.

A fotografia de Walter Carvalho utiliza tons amarelados durante quase todo o filme, as exceções são poucas, nos momentos de trabalho dos personagens, até mesmo o céu é mais desbotado e amarelado. A cor vermelha é praticamente ausente, sendo atribuída a dois “objetos” diferentes somente; o sangue e ao fogo. A cor inclusive é de grande significância para a narrativa, pois através do amarelamento do sangue da camisa estendida no varal é que se dá a passagem de tempo de grande parte da narrativa.

O azul está mais evidente no céu em cenas de “respiro” dos personagens, dentre os vários momentos, vale destacar as duas cenas na gangorra, o balançar faz paralelo ao sobe e desce da vida, em um momento está tudo amarelo e quente, em outro tudo azul e frio, é a forma fotográfica de representação dos momentos de vida do personagem, da incerteza do futuro. Essas cores (amarelo e azul) também nos evidenciam o sertão e o mar, uma vez que o azul no sertão só é visto no céu, ou em tom muito claro na roupa da mãe, em uma das últimas cenas. O curioso é que a praia e o mar, não apresentam o tom azul que normalmente atribuímos a água e a praia, mas o Walter Salles e Walter Carvalho, optam por usarem uma “praia branca” não por acaso. Para o personagem, aquele é o seu céu.

A poética do filme de Salles está também na presença de Pacu (Ravi Ramos Lacerda), irmão mais novo de Tonho, curiosamente este personagem não existe no romance original de Kadere, e é inserido como elemento poético pelo diretor. Pacu ganha de presente um livro de histórias e como não sabe ler cria com as imagens que vê no livro. Quem entrega este livro a Pacu é Clara (Flávia Marco Antônio),  uma artista de circo que conhece o menino em um encontro ao acaso. O nome Clara e a sua personagem tem uma significação importante para a trama, ela é aquela que ilumina e não só traz esta “janela” de escape para Paco, para um mundo de sonho e esperanças, mas também traz a vontade de continuar vivendo para Tonho. Clara e Tonho se envolvem emocionalmente e este sentimento faz Tonho abandonar a sina de vingança que rege as duas famílias.

Outro elemento de poesia, está na cenografia do filme, onde muitas das cenas se passam em volta de uma árvore seca. Esta árvore sem folhas e sem viço, que com os galhos secos e retorcidos se voltam para o céu, se assemelha com  as mãos do homem, como se estivesse clamando a Deus por bênçãos, para aquela família que sofre com a extrema miséria e a tristeza do sertão nordestino. A árvore também segura um balanço onde várias cenas de extrema beleza foram realizadas. Pacu está neste balanço quando Tonho sai para matar o filho da outra família e a cena é retomada quando Tonho reaparece. Ela é como um alento à criança, e o balanço é como o pêndulo de um relógio que marca de forma trágica e macabra o tempo que falta para acontecer a próxima morte. É também debaixo desta árvore que Pacu viaja e sonha com as gravuras que vê no livro, como analfabeto, este só “lê” o que está desenhado e com isto ele cria mundos nos quais poderia estar inserido. É o seu refúgio.

Em outra cena, no momento de próximo a de sua morte, Tonho se permite um momento de sonho, e pergunta a Pacu se ele se lembra quando ele o ensinou a voar naquele balanço. Esta pergunta confirma a ideia do balanço ser um espaço de sonho e de liberdade no meio daquela trama de ódio e vingança. Pacu fala: “Tonho hoje é tu que vai voar, você fica no meu lugar e eu no teu”, esta frase é profética, antecipando o final da trama e fecha com chave de ouro uma das cenas mais lindas do filme, no qual a família se permite um momento de alegria. No balanço Tonho fecha os olhos e abre um sorriso se permitindo um momento de prazer, como se fosse possível no meio dessa guerra insana ter uma trégua.

 

Referências Bibliográficas

ÉPOCA, A COSMÉTICA DA FOME. Disponível em: http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT373958-1661,00.html. Acesso em 28 de Março de 2017.

Franthiesco, B. CINEMA BRASILEIRO NO SÉCULO 21. Editora Summus. 2012.

Previous PostAnálise crítica: O Cinema de Hitchcock
Next PostA mise en scène no Desprezo de Godard: uma questão de moral.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *