A mise en scène no Desprezo de Godard: uma questão de moral.

A mise en scène no Desprezo de Godard: uma questão de moral.

A metalinguagem é uma das linguagens que o cinema usa para falar de si mesmo. Muito comum e usado por grandes cineastas como Federico Fellini com o filme Oito e Meio (1963), Wood Allen com Memórias (1980) ou François Truffaut com o filme A Noite Americana (1973). Poderia citar muitos outros diretores e muitos outros filmes, mas o diretor e o filme em foco nesta análise usam a metalinguagem e a mise en scène para falar do cinema como arte e crítica ao próprio cinema comercial.

O diretor em questão é Jean-Luc Godard, francês e muito conhecido pelos seus mais de 50 filmes, vanguardista e polêmico pela sua forma de filmar. Godard começou sua carreira em 1952 como colaborador na revista Cahiers du Cinéma. Conhecido como “jovens turcos”, junto com Alain Resnais – Hiroshima, meu amor (1959) e François Truffaut – Os Incompreendidos (1959), Godard, depois de vários curtas, lança seu primeiro longa: Acossado (1959). Se transformando então em um dos pilares da Nouvelle Vague, um movimento que iria revolucionar a cinematografia francesa. Também conhecido como Hitchcock-hawksianos valorizava os então chamados filmes B americanos, trazendo à tona a experimentação formal, a exemplo de cineastas como o americano Samuel Fuller, que na época era visto como diretor de entretenimento – os “jovens turcos” viam arte.

Godard propõe desconstruir as convenções da época, trazendo novas “cores” à linguagem cinematográfica (fotografia, enquadramentos, direção de arte e montagem), buscando inspiração na mise en scène escreve o longa O Desprezo (1963). Mostra-se neste filme um diretor fora do padrão comum, voltado à crítica do próprio cinema que faz. Coloca na tela aquilo que havia defendido nas críticas da revista Cahiers du Cinéma.

O Desprezo nos conta a história de um roteirista francês – Paul Javal (Michel Piccoli), casado com a sensual datilógrafa Camille (Brigitte Bardot no auge da sua carreira) que é contratado para terminar um roteiro de um filme sobre a Odisseia de Homero, pelo produtor americano Jeremy Prokosch (Jack Palance em excelente atuação). Costurando estes personagens temos a secretária e intérprete de Prokosch – Francesca Vanini (Giorgia Moll), que serve de ponto de partida para a mudança de comportamento do casal Javal.

Este filme – Ulisses – já está sendo rodado e dirigido inicialmente em Roma (estúdios da Cinecittá) pelo diretor alemão Fritz Lang que interpreta ele mesmo. O produtor não está satisfeito com o desenrolar da trama do filme e propõe a Paul que reescreva o final do filme. Paul, interessado em receber uma boa remuneração pelo trabalho, precisa do dinheiro para quitar seu apartamento na França, faz um jogo de sedução, facilitando o acesso do produtor à sua estonteante esposa. Camille, quando percebe este jogo, começa um embate verborrágico e uma mise en scène com o marido que acaba por despreza-la pela atitude. Boa parte da história se desenvolve na paradisíaca e maravilhosa ilha de Capri, nas cenas finais dos dois filmes: Ulisses e Desprezo. O roteiro do filme foi baseado em um livro de Alberto Moravia.

Pela voz de Godard o filme inicia com sua narração off dizendo os créditos. Uma música triste ao fundo, quase fúnebre – trilha sonora de Georges Delerue – nos mostra os estúdios da Cinecittá e uma câmera faz um travelling. Esta cena nos remete a uma frase do próprio Godard: “O travelling é uma questão de moral”, modificando frase já dita por Moullet. Tantas vezes, esta questão de moral foi usada por Godard e Rivette para justificar que não é só o tema e nem o discurso do filme que são válidos, mas sobretudo sua mise en scène. Nada mais moral do que começar este conto com um longo travelling lateral que termina nos enquadrando. Quebra da quarta parede.

Não tem como não nos lembrar do cinema: olho/câmera/realidade/montagem do soviético Dziga Vertov – Um Homem com uma Câmera (1929). Godard faz o corte desta abertura com uma citação: “O Cinema substitui um mundo por outro que cabe em nossos desejos.” e complementa: “O Desprezo é a história deste mundo.” É um convite a embarcar nesta fantasia (a câmera nos chama), neste sonho. Temos que viajar com Ulisses em busca de uma Ítaca que não existe. Ela só é possível nos nossos sonhos, nesta sala escura com este mundo possível de Godard.

A sedução explode na tela com o corpo nu de Brigitte Bardot, iluminado pelas cores da bandeira da França, uma luz que vai mudando de vermelho escuro para a luz branca natural e finaliza com uma azul aveludada, à medida que Camille nos faz apreciar todo o seu corpo com luxuria e beleza – é o amor deste casal que está prestes a ser desmoronado: um trabalho do diretor de fotografia Raoul Coutard (o mesmo que nos aparece operando a câmera na primeira cena do filme). Todo o filme é trabalhado em cores que nos remetem a paixão, amor, tristeza, luxúria, ódio e desprezo.

Todo filme é metalinguagem: Paul é Ulisses, Camille é Penélope, Prokosch (produtor) é Neturno, reis do mares, opositor a Ulisses (Paul). Os homens se veem limitados pela natureza. O embate entre produtor e diretor/roteirista, são duelos de deuses e humanos que na fala de Lang: “Não foram os Deuses que criaram os homens e sim os homens que criaram os Deuses”. Mesmo Godard elogiando os filmes B de Hollywood, faz uma crítica ao cinema capitalista de Hollywood com a banal morte do casal Prokosch/Camille em seu carro vermelho (luxuria e castigo)

O filme é dividido em três atos como uma peça grega, apresentação e começo do desgaste da relação do casal, embate entre os dois e por fim o trágico desfecho. A grande moral de Godard é mostrada através da mise en scène apresentada na cena final, quando Paul desiste de alterar o roteiro de Lang e retorna às suas origens de roteirista teatral e a voz de Lang impera no set de filmagens gritando: “silêncio”, com um travelling panorâmico do mar de Capri. Este silêncio nos evoca a reflexão destas imagens, desta encenação e por fim da moral que Godard nos faz pensar na sua forma de fazer cinema.

 

Referências Bibliográficas

https://ateladoaventurar.wordpress.com/2011/07/13/o-desprezo-e-o-realismo-onirico-de-jean-luc-godard-uma-questao-de-moral/

https://omelete.uol.com.br/filmes/criticas/o-desprezo/?key=22243

https://cinemaedebate.com/2010/09/23/o-desprezo-1963/

http://www.cineplayers.com/critica/o-desprezo/2072

O Desprezo (Jean-Luc Godard, 1963)

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