O Choque do Real: Estética, Mídia e Cultura.

O Choque do Real: Estética, Mídia e Cultura.

Filmes: Última Parada 174 (2008) – Ônibus 174 (2002) – documentário

Autores: Bárbara Antônia,  Beatriz Flecha,  Izabela Silva, Marcelo Cesar,  Michaela Machado

 

Beatriz Jaguaribe (2007), em uma nas suas reflexões iniciais do texto “O choque do real e a experiência urbana”, afirma que a cidade cheia de lixos, onde as pessoas são minadas por uma cultura do medo, é também cenários para as novas tecnologias e meios de comunicação. As construções midiáticas, fílmicas e literárias atuais influenciam na criação de uma estética sobre a retratação da violência na sociedade – assaltos, roubos e violações – usada como forma de entretenimento. Para ajudar-nos a entender o conceito do choque do real e sua finalidade, é importante notar sua presença nos diversos meios de comunicação de massa (como a reportagem jornalística, o fotojornalismo e o cinema).

As narrativas fílmicas (inclusive nos documentários) atendem ao que a autora chama de usar a verossimilhança e intensificação do real. Tal conceito pode ser utilizado para perceber a indústria de entretenimento formada em torno do sequestro ao ônibus 174. O episódio, que marcou o povo brasileiro, foi tema para o documentário dirigido por José Padilha e Felipe Lacerda em 2002. E anos mais tarde serviu de base para o filme “Última parada 174”, dirigido por Bruno Barreto.

Em 12 de Junho de 2000 no bairro Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Sandro do Nascimento (então com 22 anos) invadiu o ônibus com um revólver calibre 38 com o objetivo de assaltar os passageiros. Impedido pela polícia militar, Sandro iniciou um sequestro que se estendeu por cinco horas. Toda a ação foi acompanhada e amplamente divulgada pela mídia da época, que transmitiu ao vivo para a população brasileira o desenrolar do sequestro.

O documentário discursa sobre o sequestro do ônibus com uma visão mais intimista, que se vale de depoimento das vítimas e policiais presentes para narrar os fatos. Ele tenta também, através de depoimento de pessoas que conviveram com Sandro, criar um perfil do sequestrador e trazer humanidade para o personagem.  Já em 2015, o filme que pretende ilustrar a vida de Sandro, Última Parada 174 (2008), dirigido por Bruno Barreto e roteirizado por Bráulio Mantovani, foi uma produção ficou a cargo da empresa Moonshot Pictures, com os atores Michel Gomes e Marcello Melo Jr. E entrou na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. É uma ficção baseada na história verídica de Sandro Barbosa do Nascimento, menino de rua do Rio de Janeiro que sobreviveu à chacina da Candelária e, em 2000, sequestrou um ônibus mantendo várias pessoas reféns sob posse de um revólver. Em 2008 o filme foi escolhido pelo Ministério da Cultura como representante do Brasil na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro na cerimônia de 2009, mas não foi indicado.

É interessante observar que a mídia visual possui mais força do que a escrita – comprovado no que presenciamos com o sequestro: o espetáculo, a abundância de informações e uma incansável repetição. O que nos leva a questionar a função da mídia nesses acontecimentos. Apesar de romper com a causalidade e oferecer uma experiência intensa ao espectador (principalmente através da tragédia) o choque é silenciado pela banalidade. O documentário e o filme adequam-se ao que a autora chama de tradição do naturalismo e brutalismo, afinal, contam a história do “realismo sujo das ruas”, retratam a violência em situações limites e ilustram a precariedade e marginalização das classes mais baixas. As pessoas, embora atentas ao entretenimento, temem que esse choque seja transferido para sua particularidade. Todo esse cenário funciona como um efeito cíclico, o espectador tem medo, mas procura tais emoções para revitalizar seu cotidiano entediante, a mídia por outro lado, cria o imaginário do risco e depende da circulação da narrativa sobre a violência. Ou seja, o contato do espectador com a metrópole, resume-se em voyeurismo.

Segundo Jaguaribe (2007) “Além da desterritorialização, da circulação de bens de consumo global, da presença formidável de novas tecnologias e dos meios de comunicação, as cidades contemporâneas também são territórios minados […]” e é o que vem sendo mostrado no mundo inteiro, com a globalização e o crescimento acelerado do neoliberalismo. O homem vem ganhando em tecnologia, em contrapartida vem perdendo em liberdade e o medo da violência urbana só aumenta.

O filme e o documentário mostram uma situação de violência causada por problemas sociais. Durkheim já previa o perigo da evolução da sociedade moderna que cresce a cada dia pelo individualismo provocado pelo movimento liberalista e que gera uma falta de pertencimento de um grupo de indivíduos na sociedade. A classe baixa e os moradores da favela sentem um esvaziamento e uma falta de credibilidade no estado de direito, pelo fato de estes não existirem para os mais pobres e a justiça só aparecer para os mais ricos. Isso provoca um estado de anomia na população da classe baixa no Brasil, aumentando a pulsão de violência nesses indivíduos, como mostrado por Durkheim em que anomia se manifesta ou pelo homicídio ou pelo suicídio. O desejo de morte fica explícito no documentário de Padilha, onde os prisioneiros de uma cadeia superlotada, falam repetidas vezes que é melhor morrer do que continuar preso e também nas próprias falas de Sandro durante o sequestro. O estado de anomia também provoca o estranhamento entre grupos, assim como o conflito de classes, onde a classe dominante não compreende a violência gerada pela classe mais baixa ou vice-versa. Tanto o documentário quanto a ficção sobre o caso do ônibus 174, tentam investigar este estado de estranhamento e a falta de compreensão de olharmos para o outro.

A ideia do “choque do real” é fazer com que o espectador saia do seu lugar comum e busque a reflexão de mundo. No caso dos filmes é ter a oportunidade de fazer uma reflexão sobre o olhar do outro. Aprofundando na experiência de vida daquele indivíduo que a princípio tem o rótulo de bandido, temos a oportunidade de não apenas julgar o ato de violência, mas pesar quais os caminhos que levaram a personagem a agir daquela forma. Deste modo paramos de agir pelo pressuposto de que um indivíduo nasce bandido pela índole, mas pela construção cultural. Perguntas começam a surgir no nosso pensamento e no nosso íntimo sobre a nossa responsabilidade sobre estes indivíduos que estão pelas ruas usando drogas, se prostituindo, roubando, assassinando e cometendo a violência de forma tão banalizada. Como cidadãos do mundo qual o nosso papel para melhor a sociedade na qual vivemos?

O cinema nacional tem explorado bem o que a autora chama de “marginais midiáticos” com vários filmes que vêm fazendo sucesso, nos quais a favela é estetizada, “estes filmes reforçam como a mídia se torna real, e a vida se ficcionaliza […]”. Este cenário de guerra urbana é vendido ao exterior como mostrado no grande sucesso de Cidade de Deus (2002). São personagens que tanto na tela como na vida real crescem meteoricamente e também acabam sendo vítimas desse próprio processo, caindo no esquecimento rápido e muitas vezes são mortos pela própria violência na qual vivem e na qual mostram na tela. A naturalização desta estética não tem trazido mudanças sociais para os seus próprios “atores”, conforme as próprias palavras da autora: “A absorção do outro excluído pelo “choque do real”, evidentemente, não altera a montagem social, não produz agenciamento político, nem garante, inclusive, uma recepção empática.” (JAQUARIBE, 2007, p.124).

Concluindo, o produto audiovisual, hoje, permeia entre o ficcional e o real, ficando difícil distinguir entre os gêneros. Tanto o texto da Jaguaribe (2007) quanto os filmes assistidos mostram que a imagem cumpre o papel de revisitar o fato acontecido, mas sempre nos alertando para a diferença entre o que realmente aconteceu e o que está sendo ressignificado com as cenas filmadas ou encenadas. Até mesmo um documentário com a força da realidade que tem o Ônibus 174, nos faz refletir sobre o sentido colocado na montagem daquelas cenas. O estudo acima fica como reflexão para pensarmos a sociedade na qual estamos inseridos e qual o nosso papel na construção dos outros que passam por nós a todo momento, sejam eles crianças pedintes ou a assaltantes, principalmente como profissionais da área de comunicação.

 

Referência Bibliográfica

JAGUARIBE, Beatriz. O Choque do Real: Estética, Mídia e Cultura. Rio de Janeiro: Editora Rocco. 2007.

 

 

 

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