T2 Trainspotting – uma “viagem” ao passado.

T2 Trainspotting – uma “viagem” ao passado.

Desmembrando a palavra trainspotting se tem a grata surpresa de descobrir que trains além do substantivo trem também pode ser o verbo praticar ou treinar, a palavra pot pode ser o substantivo maconha e como verbo pode significar colocar, a terminação ing é o gerúndio que aplicado ao verbo no infinitivo significa uma ação contínua. Então, a palavra pode tanto significar você se colocar dentro de um trem ou praticar o uso da maconha. O interessante que todas as duas traduções são muito bem entendidas no desenvolvimento da história, com a diferença de não ser a maconha o principal interesse dos personagens da história e sim a heroína, droga que era o ponto alto dos viciados nos anos 90, mas que hoje foi superada pelo crack.

Em T2 Trainspotting (2017), 20 anos depois de ter traído os amigos, Renton (Ewan McGregor), depois de um infarto e de ter tentado levar uma vida normal, retorna a Edimburgo na Escócia onde terá que se defrontar com o seu passado. É neste encontro que o filme de Danny Boyle ganha uma memória afetiva que nos faz relembrar o Trainspotting de 1996. Época que o primeiro filme foi lançado e causou impacto na maioria das pessoas que assistiram. A linguagem escolhida pelo diretor para mostrar um grupo de jovens da classe operária, viciados em heroína trazia uma agilidade e imagens de impacto a quem assistia – exemplo a cena de Renton buscando dentro de um vaso sanitário imundo, os comprimidos que havia acabado de evacuar.

A história foi baseada no livro de Irvine Welsh escrito no final da década de 80 e inspirados nas anotações do diário do autor. O enredo trata da questão existencial destes jovens.  Não queriam morrer antes de ficarem velhos, e sim tirarem o maior proveito do que a heroína poderia lhes proporcionar. Tese defendida no discurso de Renton logo no início do filme de 1996 e adaptado para o filme de 2017. Boyle não consegue dar ao novo filme o mesmo frescor do primeiro, mas vale muito a reflexão do que aconteceu com a nossa sociedade em especial aos jovens, ao longo destes 20 anos.

As drogas são mais pesadas e não permitem a oportunidade de redenção como a busca constante de Renton pela sua recuperação. Os filhos do crack são bem mais autodestrutivos que os filhos da heroína. Os valores de família já não são os mesmos. Voltar à casa paterna e encontrar o quarto com o mesmo papel de parede de 20 anos atrás é uma licença poética de Boyle a uma família muito rara de se encontrar na nossa sociedade.

Os amigos de Renton: Spud (Ewen Bremner) – desempregado e o mais engraçado de todos eles, basta visitar a cena no qual ele acorda na casa da família da garota da noite; Sick Boy (Jonny Lee Miller) – um cafetão fracassado que arquiteta a vingança ao amigo Renton; e Franco (Robert Carlyle) – prisioneiro fugitivo, mais violento e vingativo. Eles não conseguem melhorar as suas vidas, mas na realidade é assim mesmo, não é? Esta questão traz para o espectador uma pseudo realidade de encontrar com personagens 20 anos depois. Ponto positivo para Boyle, conseguir reunir todo o elenco e equipe nos dando a impressão de que tudo aquilo é real.

Sensação que buscamos quando entramos em contato com a “caixa preta”, nos rendemos quando nos colocamos diante da tela branca, no escuro da sala, sem ninguém para nos perturbar, nestas 2 horas mágicas de projeção. Neste caso, o contrato que assinamos com o diretor é maior, porque tudo está mais velho, é como se tivéssemos marcado um encontro com estes “nossos conhecidos” de anos passados. A magia que o cinema pode nos proporcionar. Para nos deixar ainda mais nostálgicos, o diretor aprofunda na construção dos personagens mostrando cenas de lembranças em flashbacks de três idades diferentes (jovem, 9 anos e 20 anos), tornando nos mais íntimos e mais saudosos destes “amigos”.

A trilha sonora é uma personagem à parte que nos faz dançar na cadeira do cinema em especial na cena final quando Renton entra em uma viagem através do tempo do seu quarto, que funciona como um vagão de trem em alta velocidade – cena final – trainspotting. No primeiro filme: David Bowie, Brien Eno, Iggy Pop, Lou Reed e no segundo: Frankie Goes to Hollywood, Blondie e muitos outros.

Boyle não consegue trazer o impacto que o primeiro filme causou no final da década de 90, depois de filmes contemporâneos com cenas de sexo explícito no qual o cinema contemporâneo tem muito explorado. O espectador de hoje está acostumado com cenas da vida real, que são compartilhadas a todo o momento pelas redes sociais. Parafraseando Renton: “Os tempos estavam mudando, as drogas estavam mudando e as pessoas estavam mudando”. Mas como um train de volta para o passado e como responsável por despertar em nós uma reflexão sobre os nossos tempos, é muito válido e muito prazeroso participar desta viagem.

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